Nosso lar - capitulo - X / XXV (audio)

O "Nosso Lar" em voz
Este é o
décimo
capítulo de 25

Comparações e vida
numa cidade do astral e na terra...

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Carta aos meus filhos - (audio)





Carta a meus filhos, sobre os fuzilamentos de Goya

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem sequer seja isto
o que vos interessa para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
Amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, delivre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse com suma piedade e sem efusão de sangue.
Por serem fiéis a um Deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou as suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
o caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém,
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Será ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruiram, aquele gesto
de amor, que fariam "amanhã".
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena – Metamorfoses, 1963




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Nosso lar - capitulo - IX / XXV (audio)

O "Nosso Lar" em voz
Este é o
nono
capítulo de 25

Não se acende Luz
em candeia sem óleo e pavio...

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Nosso lar - capit. - VIII / XXV (audio)


O "Nosso Lar" em voz
Este é o
oitavo
capítulo de 25

Reflexões
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Nosso lar - capitulo - VII / XXV (audio)

O "Nosso Lar" em voz
Este é o
sétimo
capítulo de 25

O que é o umbral?
Como funciona o umbral?

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Nosso lar - capitulo - VI / XXV (audio)


O "Nosso Lar" em voz
Este é o
sexto
capítulo de 25

Organização e comparação de uma cidade
no plano espiritual

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Nosso lar - capitulo - V / XXV (audio)


O "Nosso Lar" em voz
Este é o
quinto
capítulo de 25
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Oiça o relato em que se fala dos Portugueses no Brasil
E da sua importância no plano espiritual desse País

Nosso lar - capitulo - IV / XXV (audio)




O livro "Nosso Lar" em voz.
Este é o
quarto capítulo de 25

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Nosso lar - capitulo - III / XXV (audio)




O livro "Nosso Lar" em voz.
Este é o terceiro capítulo de 25

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Nosso lar - capitulo - II / XXV (audio)




O livro "Nosso Lar" em voz.
Este é o segundo capítulo de 25

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Nosso lar - capitulo - I / XXV (audio)





O livro "Nosso Lar" em voz.
Este é o primeiro capítulo de 25

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Feliz Natal - Jesus e a Obsessão

Reflecções...

JESUS E A OBSESSÃO
Emmanuel

Cristãos eminentes, em variadas escolas do Evangelho, asseveram na actualidade que o problema da obsessão teria nascido no culto da mediunidade, à luz da Doutrina Espírita, quando a Doutrina Espírita é o recurso para a supressão do flagelo.


Malham médiuns, fazem sarcasmo, condenam a psicoterapia em favor dos desencarnados sofredores e, por vezes, atinge o disparate de afirmar que a prática medianímica estabelece a loucura.
Esquecem-se, no entanto, de que a vida de Jesus, na Terra, foi uma batalha constante e silenciosa contra obsessões, obsidiados e obsessores.


O combate começa no alvorecer do apostolado divino.


Depois da resplendente consagração na manjedoura, o Mestre encontra o primeiro grande obsediado na pessoa de Herodes, que decreta a matança de pequeninos, com o objetivo de aniquilá-lo.


Mais tarde, João Batista, o companheiro de eleição que vem ao mundo secundar-lhe a obra sublime, sucumbe degolado, em plena conspiração de agentes da sombra.


Obsessores cruéis não vacilam em procurá-lo, nas orações do deserto, verificando-lhe os valores do sentimento.


A cada passo, surpreende Espíritos infelizes senhoreando médiuns desnorteados.


O testemunho dos apóstolos é sobejamente inequívoco.


Relata Mateus que os obsediados gerasenos chegavam a ser ferozes; refere-se Marcos ao obsediado de Cafarnaum, de quem desventurado obsessor se retira clamando contra o Senhor em grandes vozes; narra Lucas o episódio em que Jesus realiza a cura de um jovem lunático, do qual se afasta o perseguidor invisível, logo após arrojar o doente ao chão, em convulsões epileptóides; e reporta-se João a israelitas positivamente obsediados, que apedrejam o Cristo, sem motivo, na chamada Festa da Dedicação.


Entre os que lhe comungam a estrada, surgem obsessões e psicoses diversas.


Maria de Magdala, que se faria a mensageira da ressurreição, fora vitima de entidades perversas.


Pedro sofria de obsessão periódica.


Judas era enceguecido em obsessão fulminante.


Caifás mostrava-se paranóico.


Pilatos tinha crises de medo.


No dia da crucificação, vemos o Senhor rodeado por obsessões de todos os tipos, a ponto de ser considerado, pela multidão, inferior a Barrabás, malfeitor e obsesso vulgar.


E, por último, como se quisesse deliberadamente legar-nos preciosa lição de caridade para com os alienados mentais, declarados ou não, que enxameiam no mundo, o Divino Amigo prefere partir da Terra na intimidade de dois ladrões, que a ciência de hoje classificaria por cleptomaníacos pertinazes.


À vista disso, ante os escarnecedores de todos os tempos, eduquemos a mediunidade na Doutrina Espírita, porque só a Doutrina Espírita é luz bastante forte, em nome do Senhor, para clarear a razão, quando a mente se transvia, sob o fascínio das trevas.
Psicografia de Francisco Cândido Xavier

JC

A PIRÂMIDE DA VIDA E O ALPINISTA

Existem dois factores importantes na vida.

O ser pode parar de evoluir ou evoluir, a involução não existe.

a maioria das pessoas, Comunidades Espirituais incluídas, vive na vibração do "parar de evoluir". Vive em torno de um circulo em que quer ou deseja o material, o espiritual e demais vibrações que considera positivas e boas. Isso não poderá ser evolução.

Se imaginarmos uma pirâmide de três lados iguais, ela tem três faces, uma base que é ponto mais largo da pirâmide e um pico, o ponto mais estreito da pirâmide. Conforme se sobe esta pirâmide, assim o caminho é cada vez mais estreito e cada vez mais solitário.

As pessoas em geral não estão a subir a pirâmide, estão a andar em volta da mesma algures num ponto do caminho da base ao pico.

andando assim em circulos á volta da pirâmide. Se é num ponto mais alto ou mais baixo não importa, o que importa é que é assim e cada um é o que é da forma que é. Imaginar que estã a subir é uma ilusão que cria para si mesmo. Viva essa ilusão qual acto de ilusionismo fabricado por si e para si.

Ninguém pode subir na pirâmide e aliar crescimento espiritual a crescimento material. Para subir, temos de nos ligar qual alpinista a cordas invisiveis que nos suportam e que nos ligam a seres de mais Luz. Se nos ligamos a seres de cada vez mais luz, por falta de sintonia vamos deixando bagagens de menos luz pelo caminho.

A subida cada vez custa mais, cada vez á mais estreito o caminho.

Os despertos, antes de agarrarem a corda que os ajuda a subir, confirmam primeiro onde está a outra ponta da corda, ao pico da pirâmide? ou a qualquer outro ponto lançada por um menos incauto preso nas malhas da ilusão?

São muitas as cordas, umas ajudam a subir, outras servem para nos manter presos ao mesmo local da subida onde estamos.

Se pelo contrário, queremos aliar espiritualidade a bens materiais, eles são opostos, por isso, temos de optar não ligar a seres de mais luz, mas sim, ficar ligados aqueles que ainda sintonizam no material. De cada vez que se liga acima, assim perde as ligações correspondentes abaixo. Isto não é ser mau, não é ser melhor ou pior. Simplesmente é luz na mesma. Não é escuridão.

Existem muitas variáveis e variantes na Luz. Paramos algures na subida da pirâmide e comtemplamos o dinheiro, a casa, o carro etc etc etc.

Um dia acordamos, cansamos desta ilusão e retomamos a caminhada que um dia começámos.

Estas são as principais razões pelas quais tanta divergência acontece nas teorias da espiritualidade. todas estão certas e todas estão erradas.

Se algures no caminho o médico se deslumbra com uma ferida, fica enfermeiro. Está na mesma na medicina, aceite-se como enfermeiro, não se julgue um médico, e assim, será mais feliz pois viverá de acordo com o que é e não numa ilusão. Isto é a consciencialização, a base. A partir da consciencialização ele poderá retomar os estudos e evoluir para médico.

Não importa que todos aqui se achem médicos ao ler este artigo, importa sim que uns estarão iludidos nas malhas da vida e outros não.

A subida da pirâmide é um caminho cada vez mais estreito e cada vez mais solitário, solitário de matéria e de quem se liga a ela, pois ela pesa presa ao corpo e torna-nos mais pesados impossibilitando assim a subida.

Todos nós, quando nos propomos ajudar alguém, lançamos uma corda abaixo de nós. O outro segura a corda e trepa. por vezes, mais á frente, larga a nossa corda e segura outra que está ligada mais acima ultrapassando-nos na escalada. Muitos sentem desprezo, mágoa, eu estava a ajudá-lo... algures acima ele vai lançar a sua corda para nos ajudar.

Quando lançamos a corda a alguém com uma mão, devemos ver onde está ligada a corda que nos suporta na outra mão, pois a subida do outro depende aqui da nossa própria subida. Não tenhamos inveja de quem lançou a corda antes de nós, estaria certamente mais bem suportado antes de nós. Olhemos antes para baixo e procuremos outro a quem lançar a nossa corda.

Sejamos alpinistas. Tanto é alpinista aquele que continua a subida, como aquele que parou para descansar, sabe que se parar morre com o frio da serra, então, anda em volta da mesma encontrando assim um caminho plano para descansar os musculos das pernas.

Nesta caminhada em circulo, ele tem a mente na subida, poderá pensar, se fechar os olhos, que está a subir...

está?

JC

DIFERENÇA ENTRE AJUDAR E ESTAR AO SERVIÇO

gosto de todo o tipo de musica, mas, o fado tem um cantinho especial em meu coração.

Durante alguns anos organizei sessões de fado. Quis o destino, que fosse num autocarro onde ouviria um fado que me marcaria e que penso nele todos os dias da minha vida.

Um pequeno fadista de 12 anos cantou um fado num autocarro a troco de uns escudos que foi pedindo no final.

Ouvi uma única vez este fado cantado por uma criança.

Esta criança morreu cerca de 1 ano depois, apareceu morta numa qualquer valeta em Camarate, a mesma terra onde perdi a minha filha.

deixo aqui a letra tal como a lembro após 25 anos de a ter ouvido uma única vez:

Ao ver contente a correr
um garoto a oferecer
as cautelas com meiguice
eu dele me aproximei
uma cautela comprei
em seguida assim lhe disse:

ouve lá, tu ó garoto
porque andas descalço e rôto
dás-me impressão de um vadio
pois até me custa a crer
porque não estás a tremer
num dia de tanto frio

nem teu pai, nem tua mãe
se importam de ti, também
que te faças mariola
cautelas não vendas mais
não te importes de teus pais
deves ingressar na escola.

oiça cá, senhor, porém
eu não tenho pai nem mãe
e ao dizer isto chorou
meu pai saíu da terra
foi num batalhão prá guerra
e não mais regressou

minha mãe, sofreu, sofreu
de tanto sofrer morreu
e eu fiquei bem pequenino
mas se tenho algum pecado
creia senhor, não sou o culpado
a culpa foi do destino

*********

Neste poema singelo, estão implícitas várias situações que as podemos rever á nossa volta na realidade da vida.

Um sr. que repara num rapazola que vende cautelas para subsistir, com todo o seu amor dá um conselho ao rapaz, ao ponto de sugerir que não se importe com seus pais, seus pais não estariam a ser bons pais ao ter um filho nas ruas a vender cautelas em vez de estar na escola para um dia ser um ser "melhor"??

Uma criança que perdeu seus pais, que usa do que sabe fazer para sobreviver. Esta criança é a única que vive a realidade, a sua realidade.

Em toda a história há um lado escondido por falta de conhecimento dos intervenientes, as causas, os efeitos, os karmas e os dharmas...

Claro que se esta criança ficou sem pais, certamente karmicamente teria de passar por isso, claro que se os pais morreram cedo poderiam karmicamente ter de passar por isso.

È claro que ao usar do seu dharma, este senhor, num gesto de compra de uma cautela e no acto de um conselho, estaria ali por vontade do astral, o astral colocou aquele sujeito ali, onde devia estar, precisamente para que o karma desta criança seja atenuado ou até expiado...

Contudo, ao usar apenas dos seus olhos fisicos, julgou uma situação, julgou uma criança, julgou uns pais.... aumentou o seu karma quando o astral apenas o colocou onde devia estar para usar o seu dharma e poder ajudar um ser.

È preciso saber estar ao serviço.
Estar ao serviço não é ajudar, ao querer ajudar normalmente erramos.

Estar ao serviço é fazer o que temos de fazer, o que o astral ou o cosmo queira que façamos quando nos abordam com esta ou qualquer outra situação.

Ajudar é quando queremos, por exemplo, dar um donativo para a campanha dos bolos rei. Damos e acalmamos o nosso ego, mas é positivo pois partimos do negativo para o positivo.

Estar ao serviço, é quando simplesmente doamos o mesmo donativo em automático, sem pensar: coitadinhos dos sem abrigo. Estavamos posicionados ao serviço onde o cosmo nos quis colocar e na altura certa chegou a nós a situação. Nesta altura apenas actuámos.

Dirão, mas nas duas é igual? Não, não é. Na primeira houve um julgamento impresso, julgámos e actuámos na medida do nosso discernimento, das nossas sensações e sentimentos.

Na segunda, não quisemos ajudar, não quisemos nada para além de querer estar ao serviço. Aí, o astral colocou á nossa frente quem precisa ser servido.

Esta é a diferença entre ajudar o que quer ser ajudado e estar ao serviço para servir quem tem de ser servido. Nesta está implicito apenas o cosmo, a vida, o amor. Na primeira está implícito o querer ajudar, o que quer ser ajudado mesmo sem mérito.

Eu estou a usar do meu karma, não do meu dharma, ao analizar este poema. Todos os dias da minha vida tenho procurado os sentidos de um poema tão simples, em que nem o autor do mesmo pensou...

Quem escreveu este poema, estava apenas no lugar em que o cosmo o quis colocar, a partir daí fez a obra. Quem ouve este poema pode simplesmente sentir melancolia, extrapolizar os seus sentimentos.

Direi, axiomáticamente falando, que é precisamente a simplicidade da história que me faz pensar e meditar sobre os intervenientes, as acções, as reacções, transportando-as á minha realidade.

JC

Dos medos do Eu ao mergulho no Ser

(sobre os arquétipos femininos)

Maria

Falar sobre Maria é mais difícil. Com a samaritana, com Maria Madalena nós temos alguma facilidade porque somos sensíveis à humanidade destas personagens.

Nós podemos facilmente reconhecermo-nos nos arquétipos que elas representam. Os estados de consciência pelos quais elas passam não são desconhecidos para nós. A transformação e a evolução dos seus desejos, encontramo-las na nossa própria transformação, na nossa própria evolução.

Com Maria, entra-se numa dimensão mais transpessoal, isto é, uma pessoa humana que viveu no espaço e no tempo, mas que manifesta uma certa qualidade de transparência à presença do Ser que habita e que vai ser gerado nela.

Na civilização cristã a Virgem Maria assegura a continuidade da Deusa-Mãe. Para algumas pessoas há uma certa fascinação e, para outros, uma certa repulsa. O investimento efectivo na relação com Maria é, frequentemente muito forte.

Alguns fazem dela deusa, outros fazem dela uma pessoa que as impede de viver a sua feminilidade. Porque, na personagem de Maria, insiste-se sobretudo na sua virgindade e na sua maternidade. A sua dimensão propriamente feminina parece não ter existido. E algumas mulheres dirão que este facto foi o responsável pelo desprezo e, algumas vezes, desconfiança de tudo o que concerne à feminilidade, na sua dimensão sexual.

Também, em certos meios feministas - por exemplo, no Ocidente - é muito duro falar da Virgem Maria. Que interpretação davam sobre o assunto os antigos Terapeutas?
Há interpretações religiosas e interpretações que apelam para experiências anteriores. Não se trata de negar a devoção que se pode ter em relação a Maria como um ser exterior, como um ser do passado, mas é preciso descobrir a realidade do arquétipo em nós mesmos.

Da mesma maneira que perguntávamos: "O que é a samaritana em mim?" e descobríamos as diferentes etapas do nosso desejo. Da mesma maneira como perguntávamos: "O que é Maria Madalena em mim?" e descobríamos as etapas de uma longa e profunda iniciação. Agora podemos perguntar que realidade é a Virgem Maria em mim.

A Virgem Maria Inicialmente, o que quer dizer a palavra Virgem? O que é a virgindade, na tradição antiga e na interpretação dos Terapeutas? A virgindade é um estado de silêncio, é um estado de pureza e inocência. Não é simplesmente algo físico - esta é uma interpretação mais grosseira. Para os Antigos, o importante era a interpretação espiritual e é assim que Orígenes e depois o Mestre Eckart dirão que é preciso ser virgem para se tornar mãe.

O que quer dizer isto? Quer dizer que é preciso entrar num estado de silêncio, num estado de vacuidade, de total receptividade, para que o Logos possa ser gerado em nós. Quando se diz que Maria é virgem e mãe, quer-se dizer que é no silêncio do corpo, no silêncio do coração, no silêncio do Espírito que o Logos pode ser gerado.

É assim que se fala de uma Imaculada Conceição. O Verbo é concebido no que há de mais imaculado em nós, no que há de mais completamente silencioso. Este é um tema que encontramos noutras religiões. Na tradição do Islão fala-se da imaculada Conceição do Alcorão, dizendo que Maomé tinha o espírito virgem.

A tradição diz que ele era analfabeto e foi nesta virgindade da sua inteligência que o Alcorão foi escrito. Os muçulmanos falam da imaculada Conceição do Alcorão. O Logos torna-se um livro, mas não se torna um homem.

Encontramos este tema da imaculada Conceição no Budismo, quando os seus adeptos dizem que foi no silêncio e na vacuidade que foi gerado o espírito desperto. Podemos juntar, em nós este aspecto do imaculado? Há em nós um lugar totalmente silencioso? Isto suporia que houvesse no corpo humano um lugar onde não existisse memória.

De um ponto de vista genético esta questão é muito interessante, porque trata-se de ir a este lugar dentro de nós mesmos, de onde nasce a vida. Quando se diz que a vida nasce do nada, o que quer dizer este nada? Então nós aproximamo-nos da experiência do arquétipo de Maria em nós mesmos.

Mas vejam bem: não se pode aproximar esta realidade com palavras, com referências normais, porque aqui nós estamos numa transição entre o tempo e o não-tempo. Em tibetano é o que se chama Bardo, que é este estado entre duas consciências, entre o criado e o incriado.

É preciso encontrar, entre nós mesmos, este lugar por onde entra a vida, este lugar por onde entra a consciência, este lugar por onde entra o amor. É uma experiência de silêncio, uma experiência de vacuidade, alguma coisa de mais profundo, de mais profundo do que aquilo que se chama o pecado original.

Charles Peguy dizia que Maria é mais jovem que o pecado. O que quer dizer isto? Isto quer dizer que existe em nós alguma coisa de mais jovem e de mais profundo que a recusa do ser, que o esquecimento do ser.

O que chamamos de pecado original é a perda do Espírito Santo. É a perda da relação de intimidade com a fonte do nosso Ser e que Jesus chama Pai.

Eu creio que se falou demais sobre o pecado original e muito pouco sobre a bem-aventurança original. A bem-aventurança original vem antes do pecado original. Assim, os Antigos viam em Maria um arquétipo da bem-aventurança original, antes que ela fosse destruída no esquecimento do Ser ou na recusa do Ser. É este local de nós mesmos que está sempre na bem-aventurança. É este local de nós mesmos que está sempre na confiança.

A questão que temos que colocar é: Existe em nós uma realidade mais profunda que a nossa recusa, mais profunda que nossos medos? É preciso encontrar a confiança original.

Maria é o estado de confiança original Algumas vezes ocorreu em nós, conhecermos algo deste estado. Quando nós não projectamos mais sobre a realidade memória nenhuma; quando nós fazemos confiança Àquele que É.

Assim, para os Antigos, Maria é o sim original. E este sim é mais profundo que todos os nossos nãos. Trata-se de reencontrar em nós mesmos aquilo que diz sim à vida, quaisquer que sejam as formas que esta vida tomar. E vocês sabem bem que não é fácil reencontrar esta confiança. Não é fácil reencontrar este sim.

Na maior parte do tempo estamos na desconfiança, no temor, e nós temos boas razões para temer e para ter medo. Quer dizer que temos muitas memórias que nos fazem medo, que nos fazem temer aquilo que a vida nos vai dar para viver.

Temos então que passar por um estado de silêncio das nossas memórias, de silêncio da nossa mente, para encontrar esta confiança original. Esta atitude era o que Krishnamurti chamava de a inocência original. Trata-se agora de interrogar o Evangelho e de ver como este estado de sim, como este estado de confiança original, se encarna na vida concreta de Maria.

Antes disso, porém, pensaremos em Maria não somente como uma personagem exterior mas como uma realidade interior. Como um arquétipo desta vacuidade, desta abertura à presença do que vive é gerado nela minuto após minuto.

E o caminho da Maria na história pode, talvez, ajudar-nos a compreender o nosso próprio caminho. Pode ajudar-nos, sobretudo, a compreender a que pontos nós estamos atulhados de memórias.

A que ponto é difícil para nós dizer sim e ter confiança. Nós podemos rezar à Virgem Maria na história, para que possamos reencontrar esta qualidade de confiança.

Leloup, Jean-Yves - Caminhos da Realização - Dos medos do Eu ao mergulho no ser.Pags 159-163
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