O Amor da Pitinha

A pitinha a que me refiro neste texto, nada tem a ver com as "pitinhas da net", refiro-me a uma ave muito comum, pouco maior que um pardal e que não sobrevive em cativeiro, uma vez numa gaiola sobrevive apenas uns dias; é uma ave que normalmente é apanhada com costelos, que é uma ratoeira para aves, sendo depois usada na alimentação humana.

Quando era jovem, acompanhava o meu pai na "caça" destas e outras aves, que serviam depois como petisco, mas o que mais me lembro destas aves e que me faz escrever este artigo, era a beleza desta ave, a suavidade e a entrega à família, ao bando.

Lá ía eu acompanhando meu pai na armação e colocação das formigas de asa nos costelos; e ainda estávamos nós a colocar outro costelo uns metros à frente do anterior e já uma pitinha estava presa, a maioria das vezes morta; era a chamada ave estúpida pela facilidade com que se apanhavam.

Não precisávamos sequer de olhar para ver se alguma pitinha tinha caído na nossa armadilha, bastava ouvir o chilrear do bando que mesmo connosco ali tão perto, sobrevoava em circulos o elemento preso e moribundo, roçando o ente perdido, era a ultima despedida, apenas se afastando quando a ave ficava inerte; eram segundos, por vezes minutos de uma entrega e beleza rara.

Lembro a aflição do bando que contrastava com a quietude do elemento preso, o chilrear que mais parecia um lamento ou uma despedida.

Ainda hoje, passados 30 anos, quando por vezes me cruzo com um acidentado ou alguem caído com um ataque de epilepsia e vejo as pessoas que apenas movidas por uma curiosidade mórbida se aproximam disputando até os lugares de melhor visibilidade, me lembro das pitinhas e penso: "Que aves tão estúpidas, Temos tanto a aprender!"


JC

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