Egos e sentimentos, a Perda de um filho

Quando perdemos um filho, é como se fossemos ar quente dentro de uma garrafa.

O caos interior é tão grande, que a sensação é para lá do vazio.

Nem a "grarrafa" vazia sentimos, não sentimos nada, apenas espanto, frustação, impotência, descordenação física e mental.

São momentos em que nem ouvimos o que nos dizem, não conseguimos sentir palavras ou acções, apenas queremos o silêncio, a solidão, para assim tentarmos "arrumar" o turbilhão que vai em nossa cabeça, procurar arrumar a cabeça, procurar raciocinar... acto impossível numa mente confusa.

O luto deve ser feito, tem que ser feito, mas o luto é feito interiormente, o luto é o arrumar, o aceitar, o libertar o ser que partiu.

O acto do luto é importante para ambos os lados, começa em nós e liberta o que partiu, dá-lhe paz, bem estar, harmonia, mesmo que nós não a tenhamos.

A morte, o desencarne, é tão natural quanto o nascer, sempre se nasceu e morreu, uns antes e outros depois, uns mais cedo e outros mais tarde, não posso ser egoísta ao ponto de, por ter saudades, por achar que a ordem natural não é essa (quem disse que há uma ordem natural?), não posso "prender" aquele que parte, se sou Pai, a minha responsabilidade de pai obriga-me a ser coerente, a ser frio e a continuar a dar o melhor a meu filho mesmo depois de partir.

Quando não aceito o que é "Natural", estou a impor preocupação e mal estar ao que parte, como homem, recuso-me a fazer tanto mal a meu filho, se o amei em vida, tenho de continuar a dar esse mesmo amor após a sua morte, como se tivesse apenas saído de casa para formar o seu próprio lar... apenas não o posso visitar por agora.

Esta é aminha forma de pensar sobre este assunto, (a morte de um filho). Aceitar a natureza, e continuar a aceitar o meu filho como ele é e onde ele está. Só assim poderei seguir o meu caminho sem o prejudicar, sem ser egoísta, sem pensar apenas em mim, pois, se pensar de outra forma, estarei apenas a alimentar o meu ego e a ser a pessoa mais egoista que existe.

A dor da perda é o que o nome indica, ninguem gosta de perder nada, todos ficam enervados e com raiva se nos roubam um carro, imaginem a imagem (errada) de a natureza nos roubar um filho.

Ser Pai não é ser dono, ser pai não é comprar um cãozinho, ser pai é uma responsabilidade, um cargo, que não acaba com o afastamento de uma das partes.

Esta é apenas a minha forma de pensar e sentir:
Grandes provas, só para grandes guerreiros.

("ganhei" uma filha quando ela nasceu, ganhei ainda mais quando ela morreu).

JC

2 comentários:

Patricia disse...

JC, procurando textos a respeito de perdas de filhos pela internet, encontrei o seu. Considerei tão tocante e tão cheio de conteúdo, que tomei a liberdade de colocá-lo no meu blogspot, com os devidos créditos. Se não quiser, eu retiro, pode me avisar.
Eu sei o que é a dor torturante da perda de uma filha, a minha se foi com quase quinze anos em Outubro de 2009 e até hoje choro e tantas vezes me desespero todos os dias.
http://queroumcaminho.blogspot.com
Obrigada, Patricia

Gabriela disse...

oi muito lindo o que vc escreveu mesmo,tb tomei a liberdade de postar no meu blog tb com os devidos creditos é muito triste o que estamos sentindo,será que um dia essa dor irá passar??obrigada,gabriela

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