Dos medos do Eu ao mergulho no Ser

(sobre os arquétipos femininos)

Maria

Falar sobre Maria é mais difícil. Com a samaritana, com Maria Madalena nós temos alguma facilidade porque somos sensíveis à humanidade destas personagens.

Nós podemos facilmente reconhecermo-nos nos arquétipos que elas representam. Os estados de consciência pelos quais elas passam não são desconhecidos para nós. A transformação e a evolução dos seus desejos, encontramo-las na nossa própria transformação, na nossa própria evolução.

Com Maria, entra-se numa dimensão mais transpessoal, isto é, uma pessoa humana que viveu no espaço e no tempo, mas que manifesta uma certa qualidade de transparência à presença do Ser que habita e que vai ser gerado nela.

Na civilização cristã a Virgem Maria assegura a continuidade da Deusa-Mãe. Para algumas pessoas há uma certa fascinação e, para outros, uma certa repulsa. O investimento efectivo na relação com Maria é, frequentemente muito forte.

Alguns fazem dela deusa, outros fazem dela uma pessoa que as impede de viver a sua feminilidade. Porque, na personagem de Maria, insiste-se sobretudo na sua virgindade e na sua maternidade. A sua dimensão propriamente feminina parece não ter existido. E algumas mulheres dirão que este facto foi o responsável pelo desprezo e, algumas vezes, desconfiança de tudo o que concerne à feminilidade, na sua dimensão sexual.

Também, em certos meios feministas - por exemplo, no Ocidente - é muito duro falar da Virgem Maria. Que interpretação davam sobre o assunto os antigos Terapeutas?
Há interpretações religiosas e interpretações que apelam para experiências anteriores. Não se trata de negar a devoção que se pode ter em relação a Maria como um ser exterior, como um ser do passado, mas é preciso descobrir a realidade do arquétipo em nós mesmos.

Da mesma maneira que perguntávamos: "O que é a samaritana em mim?" e descobríamos as diferentes etapas do nosso desejo. Da mesma maneira como perguntávamos: "O que é Maria Madalena em mim?" e descobríamos as etapas de uma longa e profunda iniciação. Agora podemos perguntar que realidade é a Virgem Maria em mim.

A Virgem Maria Inicialmente, o que quer dizer a palavra Virgem? O que é a virgindade, na tradição antiga e na interpretação dos Terapeutas? A virgindade é um estado de silêncio, é um estado de pureza e inocência. Não é simplesmente algo físico - esta é uma interpretação mais grosseira. Para os Antigos, o importante era a interpretação espiritual e é assim que Orígenes e depois o Mestre Eckart dirão que é preciso ser virgem para se tornar mãe.

O que quer dizer isto? Quer dizer que é preciso entrar num estado de silêncio, num estado de vacuidade, de total receptividade, para que o Logos possa ser gerado em nós. Quando se diz que Maria é virgem e mãe, quer-se dizer que é no silêncio do corpo, no silêncio do coração, no silêncio do Espírito que o Logos pode ser gerado.

É assim que se fala de uma Imaculada Conceição. O Verbo é concebido no que há de mais imaculado em nós, no que há de mais completamente silencioso. Este é um tema que encontramos noutras religiões. Na tradição do Islão fala-se da imaculada Conceição do Alcorão, dizendo que Maomé tinha o espírito virgem.

A tradição diz que ele era analfabeto e foi nesta virgindade da sua inteligência que o Alcorão foi escrito. Os muçulmanos falam da imaculada Conceição do Alcorão. O Logos torna-se um livro, mas não se torna um homem.

Encontramos este tema da imaculada Conceição no Budismo, quando os seus adeptos dizem que foi no silêncio e na vacuidade que foi gerado o espírito desperto. Podemos juntar, em nós este aspecto do imaculado? Há em nós um lugar totalmente silencioso? Isto suporia que houvesse no corpo humano um lugar onde não existisse memória.

De um ponto de vista genético esta questão é muito interessante, porque trata-se de ir a este lugar dentro de nós mesmos, de onde nasce a vida. Quando se diz que a vida nasce do nada, o que quer dizer este nada? Então nós aproximamo-nos da experiência do arquétipo de Maria em nós mesmos.

Mas vejam bem: não se pode aproximar esta realidade com palavras, com referências normais, porque aqui nós estamos numa transição entre o tempo e o não-tempo. Em tibetano é o que se chama Bardo, que é este estado entre duas consciências, entre o criado e o incriado.

É preciso encontrar, entre nós mesmos, este lugar por onde entra a vida, este lugar por onde entra a consciência, este lugar por onde entra o amor. É uma experiência de silêncio, uma experiência de vacuidade, alguma coisa de mais profundo, de mais profundo do que aquilo que se chama o pecado original.

Charles Peguy dizia que Maria é mais jovem que o pecado. O que quer dizer isto? Isto quer dizer que existe em nós alguma coisa de mais jovem e de mais profundo que a recusa do ser, que o esquecimento do ser.

O que chamamos de pecado original é a perda do Espírito Santo. É a perda da relação de intimidade com a fonte do nosso Ser e que Jesus chama Pai.

Eu creio que se falou demais sobre o pecado original e muito pouco sobre a bem-aventurança original. A bem-aventurança original vem antes do pecado original. Assim, os Antigos viam em Maria um arquétipo da bem-aventurança original, antes que ela fosse destruída no esquecimento do Ser ou na recusa do Ser. É este local de nós mesmos que está sempre na bem-aventurança. É este local de nós mesmos que está sempre na confiança.

A questão que temos que colocar é: Existe em nós uma realidade mais profunda que a nossa recusa, mais profunda que nossos medos? É preciso encontrar a confiança original.

Maria é o estado de confiança original Algumas vezes ocorreu em nós, conhecermos algo deste estado. Quando nós não projectamos mais sobre a realidade memória nenhuma; quando nós fazemos confiança Àquele que É.

Assim, para os Antigos, Maria é o sim original. E este sim é mais profundo que todos os nossos nãos. Trata-se de reencontrar em nós mesmos aquilo que diz sim à vida, quaisquer que sejam as formas que esta vida tomar. E vocês sabem bem que não é fácil reencontrar esta confiança. Não é fácil reencontrar este sim.

Na maior parte do tempo estamos na desconfiança, no temor, e nós temos boas razões para temer e para ter medo. Quer dizer que temos muitas memórias que nos fazem medo, que nos fazem temer aquilo que a vida nos vai dar para viver.

Temos então que passar por um estado de silêncio das nossas memórias, de silêncio da nossa mente, para encontrar esta confiança original. Esta atitude era o que Krishnamurti chamava de a inocência original. Trata-se agora de interrogar o Evangelho e de ver como este estado de sim, como este estado de confiança original, se encarna na vida concreta de Maria.

Antes disso, porém, pensaremos em Maria não somente como uma personagem exterior mas como uma realidade interior. Como um arquétipo desta vacuidade, desta abertura à presença do que vive é gerado nela minuto após minuto.

E o caminho da Maria na história pode, talvez, ajudar-nos a compreender o nosso próprio caminho. Pode ajudar-nos, sobretudo, a compreender a que pontos nós estamos atulhados de memórias.

A que ponto é difícil para nós dizer sim e ter confiança. Nós podemos rezar à Virgem Maria na história, para que possamos reencontrar esta qualidade de confiança.

Leloup, Jean-Yves - Caminhos da Realização - Dos medos do Eu ao mergulho no ser.Pags 159-163

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