DIFERENÇA ENTRE AJUDAR E ESTAR AO SERVIÇO

gosto de todo o tipo de musica, mas, o fado tem um cantinho especial em meu coração.

Durante alguns anos organizei sessões de fado. Quis o destino, que fosse num autocarro onde ouviria um fado que me marcaria e que penso nele todos os dias da minha vida.

Um pequeno fadista de 12 anos cantou um fado num autocarro a troco de uns escudos que foi pedindo no final.

Ouvi uma única vez este fado cantado por uma criança.

Esta criança morreu cerca de 1 ano depois, apareceu morta numa qualquer valeta em Camarate, a mesma terra onde perdi a minha filha.

deixo aqui a letra tal como a lembro após 25 anos de a ter ouvido uma única vez:

Ao ver contente a correr
um garoto a oferecer
as cautelas com meiguice
eu dele me aproximei
uma cautela comprei
em seguida assim lhe disse:

ouve lá, tu ó garoto
porque andas descalço e rôto
dás-me impressão de um vadio
pois até me custa a crer
porque não estás a tremer
num dia de tanto frio

nem teu pai, nem tua mãe
se importam de ti, também
que te faças mariola
cautelas não vendas mais
não te importes de teus pais
deves ingressar na escola.

oiça cá, senhor, porém
eu não tenho pai nem mãe
e ao dizer isto chorou
meu pai saíu da terra
foi num batalhão prá guerra
e não mais regressou

minha mãe, sofreu, sofreu
de tanto sofrer morreu
e eu fiquei bem pequenino
mas se tenho algum pecado
creia senhor, não sou o culpado
a culpa foi do destino

*********

Neste poema singelo, estão implícitas várias situações que as podemos rever á nossa volta na realidade da vida.

Um sr. que repara num rapazola que vende cautelas para subsistir, com todo o seu amor dá um conselho ao rapaz, ao ponto de sugerir que não se importe com seus pais, seus pais não estariam a ser bons pais ao ter um filho nas ruas a vender cautelas em vez de estar na escola para um dia ser um ser "melhor"??

Uma criança que perdeu seus pais, que usa do que sabe fazer para sobreviver. Esta criança é a única que vive a realidade, a sua realidade.

Em toda a história há um lado escondido por falta de conhecimento dos intervenientes, as causas, os efeitos, os karmas e os dharmas...

Claro que se esta criança ficou sem pais, certamente karmicamente teria de passar por isso, claro que se os pais morreram cedo poderiam karmicamente ter de passar por isso.

È claro que ao usar do seu dharma, este senhor, num gesto de compra de uma cautela e no acto de um conselho, estaria ali por vontade do astral, o astral colocou aquele sujeito ali, onde devia estar, precisamente para que o karma desta criança seja atenuado ou até expiado...

Contudo, ao usar apenas dos seus olhos fisicos, julgou uma situação, julgou uma criança, julgou uns pais.... aumentou o seu karma quando o astral apenas o colocou onde devia estar para usar o seu dharma e poder ajudar um ser.

È preciso saber estar ao serviço.
Estar ao serviço não é ajudar, ao querer ajudar normalmente erramos.

Estar ao serviço é fazer o que temos de fazer, o que o astral ou o cosmo queira que façamos quando nos abordam com esta ou qualquer outra situação.

Ajudar é quando queremos, por exemplo, dar um donativo para a campanha dos bolos rei. Damos e acalmamos o nosso ego, mas é positivo pois partimos do negativo para o positivo.

Estar ao serviço, é quando simplesmente doamos o mesmo donativo em automático, sem pensar: coitadinhos dos sem abrigo. Estavamos posicionados ao serviço onde o cosmo nos quis colocar e na altura certa chegou a nós a situação. Nesta altura apenas actuámos.

Dirão, mas nas duas é igual? Não, não é. Na primeira houve um julgamento impresso, julgámos e actuámos na medida do nosso discernimento, das nossas sensações e sentimentos.

Na segunda, não quisemos ajudar, não quisemos nada para além de querer estar ao serviço. Aí, o astral colocou á nossa frente quem precisa ser servido.

Esta é a diferença entre ajudar o que quer ser ajudado e estar ao serviço para servir quem tem de ser servido. Nesta está implicito apenas o cosmo, a vida, o amor. Na primeira está implícito o querer ajudar, o que quer ser ajudado mesmo sem mérito.

Eu estou a usar do meu karma, não do meu dharma, ao analizar este poema. Todos os dias da minha vida tenho procurado os sentidos de um poema tão simples, em que nem o autor do mesmo pensou...

Quem escreveu este poema, estava apenas no lugar em que o cosmo o quis colocar, a partir daí fez a obra. Quem ouve este poema pode simplesmente sentir melancolia, extrapolizar os seus sentimentos.

Direi, axiomáticamente falando, que é precisamente a simplicidade da história que me faz pensar e meditar sobre os intervenientes, as acções, as reacções, transportando-as á minha realidade.

JC

1 comentário:

Anónimo disse...

Este poema é familiar para mim. Já o ouvi cantar, não sei o nome do fado ou do poema mas gostaria muito de saber. Se alguém souber, por favor diga-o aqui.

Ocorreu um erro neste dispositivo