2007: Início da Reta Final



Mensagem Especial para 2007

Queremos fazer aqui um alerta e uma exortação de que 2007 é o ano, cabalisticamente falando, do Peregrino, é o ano do Buscador, do Iniciado. Pelo que ouvimos, o tempo está muito curto, o que significa também que 2007 é praticamente o último ano que temos para começar um trabalho real e concreto sobre nós mesmos.

Aqueles que ficam ainda se estão a debater nas dúvidas primárias, na questão elementar do “acredito/não acredito”, estão a perder o seu tempo. Sempre afirmámos que a evolução espiritual não é para pessoas vacilantes, dúbias, que querem estar em muitas escolas e ao mesmo tempo não estão em nenhuma delas.

Esses vacilantes precisam de se definir. Não que alguém vá atrás com uma lança ou um tridente a cobrar coisas. Temos que avisar aqui neste momento que o tempo de vacilações já passou. Aqueles que, de facto, estão interessados em fazer alguma coisa para seu próprio bem e do seu trabalho espiritual, este é o ano, mágicamente o ano que soma 9.

Este é um ano especial para aqueles que já se decidiram, já começaram a praticar inclusive, mas que ainda estavam a levar as suas práticas um tanto ou quanto relutantemente. Sabemos que todos passam por dificuldades e que os conflitos pessoais acentuam-se na medida em que os anos vão passando.

Tenho visto na nossa comunidade Netideia, que há pessoas com sérios problemas e ninguém tem uma pílula mágica capaz de resolvê-los. Os conflitos internos, cada um tem que os resolver na sua intimidade, no silêncio, no encontro de si mesmo. E este é o último ano que temos para isso.

Em 2010, terão triplicado, praticamente os acontecimentos que hoje assistimos e que já estarrecem muitas pessoas. Lá pelo ano de 2012 em diante, nem temos como discorrer sobre isso, porque justamente no dia 22 de Dezembro de 2012 termina o tempo do não-tempo. O que significa que se pode esperar de tudo, se não tivermos trabalhado sobre nós mesmos, trabalhado no sentido do desapego.

É muito fácil afirmarmos “Ah! Eu não tenho apego. Ah! Para mim não tem problema!”. Mas, em contrapartida, quando perdemos um amigo, entramos em depressão, em desespero, mesmo com todo o discurso de desapego.

O que podemos esperar, então, quando as coisas acontecerem numa magnitude muito maior? Esta preparação emocional, psicológica, já era para ter sido feita. Daí o tempo necessário para isso, para crescermos, amadurecermos, avançarmos em relação a estes mesmos desapegos.

Agora, se estávamos ou estamos vacilantes, se não conseguimos superar esses conflitos elementares, então podemos inferir que à medida que os anos forem passando, esses conflitos levar-nos-ão ao desespero e à loucura.

Não estamos a deitar palavras ao vento, nem queremos gerar um clima de pânico, como inadvertidamente acabamos por fazer. Não porque geramos isso, mas só ao falar dos acontecimentos finais, muitas pessoas ficam realmente apavoradas. O nosso objectivo não é gerar pânico e sim preparar os espíritos ou dar as indicações para que cada qual prepare o seu, uma vez que ninguém pode fazer o trabalho por outro.

É claro que nessa época actual, palavras, intenções e objectivos são sempre deturpados. Muitos que ouvem isto, lêem estas coisas ou uma mensagem como esta, tomam-na pelo lado negativo, como uma ameaça.

Em nossa modesta visão, são tontos, pois estão a desperdiçar um aviso que a Divindade deu em vez de trabalhar para superar as suas limitações, estar com o espírito pronto e amadurecido para a vida difícil que se avizinha. Desdenham destas coisas, riem, criticam, atacam... Isso é a humanidade, isso somos nós, não há como mudar.

Por isso mesmo, somos um pequeno grupo, que em certos dias congrega vinte e poucas pessoas, outro dia menos de vinte, há dias em que são mais de 70, houve um tempo em que eram mais de 300 e assim cada qual vai levando a sua própria vida como lhe parece melhor. Nosso dever é avisar sobre estas coisas, alertar que esse ano de 2007 é um ano muito significativo para quem quer construir algo dentro de si, espiritualmente falando. As ferramentas para construir isso foram dadas aqui mesmo ao longo destes anos; há muito material disponível, já são mais de 500 orientações. Este não é um canal noticioso, de novidades.

Quem quiser ouvir novidades deve ler jornais, assistir televisão, ou ir ao quiosque da esquina e comprar jornais e revistas para encontrar novidades.

Aqui trabalhamos sempre com os mesmos temas e, mesmo assim, já abrimos demasiado, devíamos ter focado mais vezes os mesmos temas. Mas sabemos que, para a mente ocidental, para a mente novidadeira, esta repetição acaba por criar um mecanismo de rejeição: mesmo ouvindo, passamos a não escutar.

Há pessoas que nós atendemos nestes anos, e acompanhamos no seu trabalho espiritual diário, que desenvolveram muito em dois anos. Mas isso é uma excepção, são pessoas que se disciplinaram a trabalhar pesadamente, já vieram com trabalho espiritual feito noutras vidas anteriores. Tudo isso faz com que esse factor tempo aqui denominado reduza. Mas o normal da condição de 99% das pessoas que aqui chegam hoje é um trabalho de cinco a sete anos. Isto se trabalhar bem, caso contrário serão quatorze, quinze anos, o normal é mais de vinte anos, pois a dura realidade da humanidade é que ninguém trabalha sobre si mesmo.


É uma grande surpresa quando, aqui no centro, alguém faz um mínimo de 30 minutos de prática, de meditação por dia. constatamos que a média de prática dos chamados médiuns no mundo, não chega a 10 minutos diários. O normal seria que cada um fizesse dez, vinte minutos de um rápido exercício de retrospecção do dia.
Como é que vão formar um centro permanente de consciência em vós fazendo zero de trabalho por dia?

Aqueles que se dispuserem a trabalhar, primeiro compreendem a natureza da Doutrina Espírita, a natureza deste trabalho, o que é o caminho iniciático. Depois de terem compreendido tudo isto, sabendo das dificuldades e das implicações, acima de tudo, de um trabalho como este, expressem, em contrapartida, em termos de trabalho prático diário e ininterrupto.

Não existe sábado e domingo para quem quer o caminho, existe apenas o dia. E o dia é feito de horas, aproveitem essas horas. Muitas pessoas alegam não ter tempo para fazer práticas, mas passam duas horas por dia em frente da televisão e ainda todas as noites ou duas, três vezes na semana alugam filmes, DVDs e aí já vão mais quantas horas?

Se, ao invés de usarem esse tempo para ficar a ver filmes, novelas, noticiários, revistas, etc., o usassem para fazer meditação, teriam o tempo necessário. A crua realidade dos factos é que somos demasiadamente débeis. Entendemos a debilidade e nós mesmos fomos assim por muitíssimos anos. Perdemos um tempo muito grande, não entendíamos a natureza do trabalho, a natureza do caminho, suas implicações, até “cair o pano” e vermos todo o cenário de uma maneira muito clara, muito concreta, de maneira palpável. Perdemos muito tempo ou foi o tempo necessário que, particularmente, gastamos para fazer isso com segurança.

Até porque aquilo que ensinamos não pode ser feito irresponsavelmente, não podíamos ensinar algo que não tivéssemos experimentado antes, senão não teríamos segurança para dizer e afirmar certas coisas. Hoje é diferente, conhecemos mais, vimos as coisas mais claramente, temos uma consciência muito maior do que aquela que tínhamos então. Cada um vai passar por este mesmo processo.

Sintetizando tudo isso, resume-se a trabalhar diariamente. Para nós aqui, estabelecer 30 minutos de prática por dia como mínimo para um médium trabalhador, surpreende muita gente. Pessoalmente, surpreendo-me como achava difícil fazer duas horas de prática e isso não é absolutamente nada.

Devemos aumentar isso para três horas, quatro horas. Como podemos fazer isso? Depende da profissão ou da ocupação de cada um. Então, cada qual tem de encontrar dentro dos seus compromissos normais e da sua sobrevivência diária, os seus horários para isso. Provavelmente vai implicar levantar mais cedo, pois que levantemos às quatro, quatro e meia ou cinco horas. Cada qual define o seu horário de despertar. Entretanto, dar-se-á um grande salto quando pudermos incluir na nossa rotina diária duas horas de prática pela manhã, mais uma hora pela noite antes de ir para a cama. Teremos três horas de prática: meditação, mantras, práticas devocionais.

E, durante o dia, trabalhar muito na auto-lembrança, na autore-cordação, na auto-observação, justamente aquela hora de meditação nocturna antes de ir para a cama seria destinada para fazer reflexões acerca de tudo aquilo que aconteceu durante o dia.

Fazer tudo isso sem pressa, sem tensão, sem stress. Ter o sentido da responsabilidade de fazer este trabalho, mas não o fazer de má vontade, pois se o fizer é porque não entendeu nada. Então, primeiro precisa voltar e compreender a natureza deste trabalho, uma vez que não o compreendeu ainda e, se não o compreendeu, faz as coisas de forma errónea e aí não há resultados.

Não que devamos buscar resultados, assim como nos alimentamos três, quatro vezes ao dia, não para buscar resultados, mas por necessidade. Da mesma forma, devemos fazer práticas por necessidade, não para buscar resultados. Assim, a própria prática torna-se um exercício relaxante e eis que surge o que o Mestre dizia: “amor ao trabalho”.

Se alguém quer fazer este trabalho sem amor, o amor não vem sem ter compreendido a natureza do trabalho e do caminho, começa mal, provavelmente até faz um trabalho inútil, seria melhor nem fazer se for para realizar desta maneira.

Sobre construir um centro permanente de consciência, ele cristaliza-se em função de trabalhos realizados. Não adianta perseguir desesperadamente esse centro, não é uma meta a ser alcançada, é um resultado natural que ocorre em função de um trabalho feito, realizado com amor ao trabalho, é isso que precisa ser entendido. Tirar da nossa mente, nossa vida, todas essas fantasias.

Não adianta alguém pegar num japamala, por exemplo, e começar a repetir mecanicamente mantras, invocações ou orações todos os dias. Isso de pouco serve, pois um papagaio pode fazer a mesma coisa. Temos de estar voltados para isso, voltados para fazer a nossa prática, naquele local mais oculto de nossa casa física e também da interior. E ali onde ninguém nos veja, façamos nossas orações, nossos diálogos com a nossa Divindade anterior.

“mas a quem eu devo rezar?”. Esta é a dura realidade: as pessoas quando chegam ao espiritismo, nem sabem a quem deve rezar. Chegam aqui oriundas de religiões cristãs e nelas ensinaram a rezar para Jesus, pois ele é o filho de Deus. A Gnose afirma que existem os Mestres e que não existe Deus, mas existem Deuses, então a pessoa entra em confusão: “mas... E agora? A quem devo rezar?”. A pergunta é pertinente, mas revela, ao mesmo tempo, o nosso grau de ignorância espiritual.

A partir dessa realidade de zero espiritual que temos para trabalhar, pode ser que alguns tenham 0,1% de esclarecimento espiritual, mas outros, além de zero, começam a caminhar para menos zero, à medida que querem fazer de seu próprio cérebro um liquidificador de doutrinas contraditórias, misturando ensinamentos pertinentes ao lado negro e ao lado branco, achando que tudo é a mesma coisa. Desde que tenha amor, tudo vale.

Uma coisa é o discurso do amor. E digo a vocês que os tenebrosos são mestres no discurso do amor, da paz, da justiça, e é por ai que eles enganam os que têm o seu centro emocional frágil, pois isso é um apelo ao emocionalismo, ao sentimentalismo. Essa é a realidade espiritual do mundo neste momento.

Nem quero aprofundar muito sobre determinadas características, porque a simples menção de determinadas práticas já seria chocante para muitas pessoas e, tomando esses cuidados, já somos acusados de muitas coisas, imaginem quando, às vezes, nos tornamos mais enfáticos ao sugerir que nos afastemos de certas práticas muito aceites, certos ambientes muito freqüentados. Esta é a nossa dura realidade e os tempos estão-se a fechar agora, se temos que tomar uma decisão, tomemos em favor de nosso próprio Pai que está dentro de nós mesmos.

Se não sabemos a quem rezar, o Irmão diz que a meditação é o alimento diário do sábio. Um capítulo do livro Psicologia Revolucionária chama-lhe “O Pão Supersubstancial”. O Dalai Lama medita três horas por dia de manhã, os lamas, os sábios, os místicos do Tibet têm os traseiros chatos por passarem horas e horas sentados em padmasana a vida inteira, meditando com a finalidade de anular a mente e os processos mentais.

E nós, agora com meros 0 minutos, cremos de facto que vamos conseguir alguma coisa palpável e concreta neste caminho espiritual? Vamos tirar a ilusão, se queremos fazer um trabalho sério, vamo-nos olhar em frente ao espelho, olhos no olhos connosco mesmos, vamos assumir um compromisso, decidir realizar algo sério pelo menos a partir desse ano de 2007, cabalisticamente, nove, uma nova oitava. Esta nova oitava terminará no ano 2016 e até lá quem saberá que transformações o mundo terá passado e se nós ainda estaremos aqui?

Esse despertar da consciência, dar-se conta da gravidade do momento e da necessidade de fazer um trabalho concreto sobre nós para deixarmos de ser tão materialistas, tão voltados para as coisas do mundo exterior. Temos que nos voltar mais para o mundo interior.

Um bom começo, seria nesse ano de 2007, começar com três horas de meditação, duas horas pela manhã e uma hora à noite antes de ir para a cama. Porque muita gente deita-se na cama e diz que faz duas horas de prática, mas não é bem assim. É preferível fazer uma hora de prática sentados ao pé da cama em posição Zen, ou padmasana aqueles que conseguem.

Tratar de estudar retrospectivamente o dia, tomar consciência dos seus erros, tratar de ver as suas mecanicidades, procurar encontrar dentro de si uma atitude positiva após uma autocrítica, mas sem culpa. Isto que nos ensinaram aqui no Ocidente de culpabilidade é um problema sério, pois o ego para se esconder faz-se de “coitadinho” e esse é um tremendo obstáculo. Não temos que nos fazer de “coitadinhos”, temos que, simplesmente, olharmo-nos de frente, para dentro de nós, no espelho da auto-reflexão interior profunda e evidente do Ser.

Com paciência, fazendo isto dia após dia, gradativamente, vamo-nos tornar mais profundos, mais exactos na auto-percepção, na auto-análise, na contemplação de nós mesmos e das nossas próprias realidades interiores.

E assim sem pressa, sem tensão, mas seguramente avançando, realizando o trabalho naturalmente, este Centro de Consciência Permanente vai-se cristalizando dentro de nós, a consciência vai ancorando em nós. Temos uma consciência, mas está espalhada, dispersa, não está activa, está adormecida, reage em função dos condicionamentos da própria mente, do próprio ego.

É esse mecanismo que temos de desarmar, este jogo que devemos jogar na meditação. Ficar a observar a própria mente, observando os “macacos” a pular agitadamente de galho em galho, sem finalidade nenhuma. Mas eles pulam. Dominar a mente é um dos primeiros passos, não nos esquecermos de nós, expressarmos a conduta recta, tantas vezes mencionada.

Com todo este ferramental, este conjunto de actividades, gradativamente nosso o mundo interior vai-se modificando. Temos que fazer a nossa parte primeiro, para que a mudança aconteça. Se alguém perseguir uma mudança ela foge, não se consegue nada perseguindo, mas sim permanecendo sereno, tranquilo, em paz, centrado em si mesmo. Só assim as coisas se consolidarão em torno de si mesmo. Enquanto estivermos agitados como pedras rolantes, é claro que nada vai aderir.

"Estas práticas meditativas costumam reduzir o tempo de sono de oito para menos horas". Acho muito difícil alguém reduzir para três horas, eu reduzi para quatro, cinco horas bons tempos na vida enquanto estava a fazer experiências comigo mesmo. Agora encontrei um outro ponto de equilíbrio que me parece mais adequado, mas são possíveis umas cinco horas sem se desgastarem.

Um dos obstáculos que temos é exactamente esse, se nos levantamos ás cinco horas da manhã e deitamos às dez, onze horas da noite, então ficamos um largo período acordados. A natureza mostra claramente em factos que todo o animal precisa, neste meio tempo, de repouso.

Aqueles que puderem, na hora do almoço, tirar para si 15, 20, 30 minutos para repousar, para tirar uma soneca ou fazer alguma prática interna, isso vai dar um alívio no sistema nervoso, no sistema parassimpático. É altamente aconselhável, mas sei que na cultura e no mundo desumano de hoje, poucas empresas oferecem essa possibilidade, este repouso na hora do almoço.

Sacrificar algumas coisas e trabalhar menos, para que se possa ter mais tempo para si e para este trabalho, isso realmente é importante. É claro que nenhum de nós vai poder abandonar tudo, aqueles que têm compromissos de família, são casados, têm família para sustentar, não podem ser levianos a ponto de largar tudo. Mas podem gradativamente mudar a sua condição, reduzir compromissos, reduzir gastos, trabalhar menos.

Procurar alternativas sem pressa, Procurando o apoio da Lei, comprometendo-se com a Lei, fazendo isso, digo-vos que as oportunidades abrem-se. Mas cada oportunidade que nos é aberta a partir destes meios aumenta mais o nosso compromisso e responsabilidade. O melhor é não negociar nada com a Lei Divina se não temos a certeza e a segurança de cumprir com o juramento.

A causa dos fracassos, é porque não criamos o hábito de fazer as práticas, começamos a fazer essas práticas hoje, sustentamos essa rotina durante uns quantos dias e então surge um acontecimento qualquer, um convite para uma festa, uma reunião de amigos, um aniversário não sei de quem, uma oportunidade de ir à praia e no impulso vai-se. Ao voltarmos, já não é a mesma coisa, algo afectou, balançou e não temos a força necessária, o thelema, para retomarmos essa vida.

O que precisamos entender é que se alguém quer esse caminho, deve transformar-se num monge na sua própria casa, na empresa, ou no trabalho em que está. Tem que encarnar este princípio do monge, fazer o seu trabalho, enquanto trabalha. Isto da conduta recta, do amor Ágape, isso da ética superior, abordada no tema das paramitas.
São ferramentas formidáveis que nos permitem trabalhar concretamente com factos, não na teoria, filosofia do espiritismo, mas nos factos concretos. Cada qual tem que encontrar a sua maneira de resolver isso, todos nós sabemos que precisamos de fazer trabalhos concretos, práticos, cumprir uma rotina de práticas esotéricas diárias, sem falhar nenhum dia.

Recentemente, alguém me consultou: "Ah! Estou a pensar “dar um tempo” nas minhas práticas espirituais, o que achas disso?". Ele já sabia qual era o meu pensamento, mas mesmo assim perguntou. As pessoas sabem, mas duvidam daquilo que sabem, querem encontrar nalguma palavra nossa um motivo para “dar um tempo”, só que esse “dar tempo” é igual a morrer, deitar fora o trabalho, uma vez que muito pouco resta.

Se viemos de uma rotina de trabalho de seis meses, duas horas por dia, é claro que isso gera um resultado interior, pode não ser muito, mas já tem alguma coisa dentro de si, percebe-se que houve mudanças dentro de si.

Então diz: "vou dar um tempo". Uma semana que passe ele volta ao zero, se algum dia retornar, e se retornar vai ser muito mais difícil. O inimigo que está dentro de nós gerou resistências, defesas naturais muito mais poderosas que estarão á espera deste pobre estudante quando ele tentar voltar, se é que vai voltar. Estatisticamente, a maioria não volta.

Se pegarmos nos seus princípios de qualquer doutrina e os implementarmos, seja numa instituição como as de recuperação de dependentes químicos, numa empresa ou na nossa vida pessoal, é claro que as coisas começam a mudar. Mas para isso é preciso ter um poder de vontade. Porque toda a vez que alguém começa a fazer um trabalho à frente de uma instituição, surge uma oposição tremenda, essa oposição que surge de fora todas as vezes que alguém quer fazer um trabalho, surge porque está dentro de nós.

È só alguém querer implementar na sua vida pessoal uma disciplina de trabalhos espirituais que essa resistência surge de dentro dele, ao que damos o nome de o Demónio da má vontade. Aquele que opõe resistência a tudo, o que condena e entrega o Cristo à crucificação.
Todos estes princípios de luz e de trevas estão dentro de nós, auto-conhecimento é pesquisar. Não se faz da noite para o dia, demora, sofre-se, cai-se muitas vezes, mas nenhum Mestre está ali com uma maquinazinha de contar quedas, eles não vêm isso, só vêm se o discípulo continua na luta, mesmo tendo tombado novecentas e noventa e nove vezes. Olham o espírito de luta e darão quantas oportunidades forem necessárias para ele continuar na guerra. Agora se cai e aproveita para tirar uma soneca no chão, é claro que não merece nenhuma oportunidade.

Essas coisas elementares e simples é que temos de considerar neste trabalho, não ficar com tantas teorias. Infelizmente, dentro do espiritismo, conseguimos transformar uma doutrina num amontoado de fantasias, princípios rígidos ou leis incompreensíveis, quando o que os mestres quiseram foi passar-nos um sistema prático de vida e não sistemas complexos que servem apenas para afiar o intelecto.

O conhecimento é dado, trazido ao mundo, mas cada qual utiliza como quer, não se tem, nem se pode ter o controle sobre isso. Cada qual é livre para escolher o que quer fazer, ninguém é obrigado a acreditar em Espiritismo, em Mestres, em Avatares, em coisa nenhuma. Mas respeite aqueles que acreditam, deixe o outro acreditar, se alguém vem pedir ajuda, ofereça ajuda, se é que tem algo a oferecer.

No Sutra da Mente consta um ensinamento budista dado a um grupo super-reservado de Buda quando esteve entre nós no mundo. Nesse sutra é comentado o seguinte: quem teria maior mérito? Aquele que tivesse tesouros suficientes para encher três universos inteiros e doasse para caridade, teria um grande mérito, mas o mérito maior, ensinou Buda, era daquele que pegasse em quatro linhas ou princípios de uma doutrina santa e ensinasse isso às pessoas para que elas se pudessem livrar da dor, do sofrimento e do Samsara, esse teria maior mérito, e não aquele que doou o tesouro do tamanho de três universos. Comparativamente, valeria mais aos olhos da lei aquele que simplesmente ensinasse quatro linhas de um ensinamento redentor. Isto é motivo de reflexão.

È evidente que para ensinar quatro linhas de um conhecimento, primeiramente precisamos compreender essa doutrina, porque de contrário, possivelmente, ainda vamos adulterar essas quatro linhas. Precisamos ensinar algo de uma doutrina legítima, doutrina branca como denominamos aqui e ensinar isso a outras pessoas. Esse é o terceiro factor de revolução da consciência. Agora como ensinar se nem a compreendemos? Aí está um dos desafios. Queremos ensinar sessenta e três livros, trezentas conferências quando nem entendemos a primeira linha, só deveríamos ensinar a primeira linha desse ensinamento, assim estaríamos a agir correctamente.

Percebam como é subtil, delicada, toda esta questão do ensinar, compreender, do dar, movimentar-se nestes desdobramentos destas realidades cósmicas. Alguém que conhece uma doutrina salvadora, que o pode libertar do sofrimento do Samsara, começa a praticar e depois abandona-a porque não consegue superar as resistências vindas de si mesmo e desiste, só por si mesmo atrairá maiores sofrimentos.

O sofrimento dá-se em função da dor e do prazer, sofrer também gera mais sofrimento, prazer também gera mais sofrimento. O sofrimento e o prazer são apenas duas faces de uma mesma moeda neste mundo da forma, temos que ir para o Vazio, para o Nirvana, sair do mundo da forma e diluirmo-nos na não-forma que se chama Nirvana.

O Nirvana não é um lugar, é um estado de consciência e isso remete-nos ao que o espiritualismo diz: ir além da dualidade da mente. Enquanto estivermos a ser moídos, esmagados pela dualidade da mente, dor e prazer, sim e não, feio e bonito, esses princípios da forma só nos gerarão mais dor. Liberdade só haverá quando fugirmos da dualidade da mente, muitos sonham com liberdade, alimentando a dualidade mental, isso é um absurdo, não têm ideia do que estão a fazer.

Oxalá seja claro ao expressar isto, colocando certos princípios desta forma. Então, vence aquele que preserva. Os Mestres, os Deuses, eles não estão ali para contar as nossas quedas, isso é normal, faz parte do aprendizado. Não há como fazer consciência e renunciar à dor ou ao prazer sem ter vivido a dor e o prazer.

Aceitação e rejeição, não temos que aceitar nem rejeitar, temos que achar a compreensão, o vazio, a consciência, romper os apegos, os lastros, e isso dá-se pela compreensão. Gradativamente, vamos construindo a nossa libertação e não precisamos de acreditar ou não em Deus, pois isso é da dualidade da mente, devemos ver o aspecto vazio que está entre os dois. Esse é o único desafio que nós temos. Despertar a consciência é cair no vazio, viver na compreensão, não na dualidade dos extremos.

Muitas pessoas, para fazerem o trabalho, querem uma motivação, mas a motivação que elas buscam é a motivação da cenoura na ponta da vara, de uma recompensa, um prémio. Neste caminho esse tipo de motivação não serve. As empresas, como motivação, oferecem recompensas pecuniárias, dinheiro ou promoção e assim jogam o seu jogo de sedução e tentação.

A única motivação neste caminho é superar o Samsara, o mundo da forma, diluir-se no vazio, encarnar o Cristo, o Buda. Isso são formas, palavras que usamos para dizer a mesma coisa, transmitir uma realidade que nos escapa aos cincos sentidos ordinários. Se tivéssemos pelo menos o sexto sentido aberto muitas dessas explicações tornar-se-iam ridículas e desnecessárias.

Aí estaria uma boa motivação, porém todo o novato faz esta pergunta: "mas porque devo praticar isto?”. Quando nós, como instrutores, também éramos novatos ou simples estudantes, a dizia-mos: "ah... Para despertar os seus poderes, alcançar a felicidade ou para você poder viajar no astral". Isso é tudo criancice, não passa da cenoura na ponta da vara para motivar o burro a puxar a carroça, motivar a seguir com o Samsara, aprisionados neste mundo como escravos das ilusões.

Para mim, a maior motivação é libertarmo-nos de todos esses mecanismos, realizar o vazio dentro de nós, não como algo a ser perseguido, mas como uma expressão que precisamos utilizar para transmitir que algo acontece, mas que, por nossa cegueira, surdez, nos afastamos e nos esquecemos dessas coisas.

Então, muitas vezes temos de dizer a um novato: "não para despertar seus poderes". Isto porque talvez ele queira poder no começo. Então precisamos esticar uma varinha e colocar uma cenoura na ponta, senão nem sequer ele se motiva a estudar. Entretanto, se queremos avançar nestes ensinamentos, esqueçamos isso, agora é hora de sentar em padmasana e achatar os nossos traseiros, entrar em meditações dia após dia, até algo acontecer, mudar, até havermos ultrapassado as trevas de Maya ou deste véu que nos prende ao mundo da forma.

Não há outra maneira de explicar estes princípios ou realidades. Na Teosofia aprende-se a fazer lindas e maravilhosas palestras, mas não se aprende prática nenhuma.
Só se aprende as práticas aqui praticando ou eu certos livros antigos. Comete-se erros no começo, mas corrigem-se. Se tiverem a felicidade de experimentar esse vazio iluminador, que alguns conseguem experimentar, quem sabe alguém de nós seja abençoado com uma experiência dessas. A minha motivação não passa por ai, é outra, não serve praticamente para ninguém.

Agora, aqui mesmo na fraternidade, houve pessoas que tiveram experiências similares a essa e esse foi um factor definitivo nas suas vidas para se lançarem às práticas com mais intensidade e inclusive alargar o número de horas diárias. Aqui entre nós há pessoas que realmente praticam seis horas de meditação diária há muitos anos. O que falamos aqui não é filosofia, é constatação do trabalho colectivo desta instituição, parte da história da fraternidade que representamos. Não quer dizer que somos melhores, nem melhores nem piores, pois isso é da dualidade mental, estou apenas relatando factos sem pretensões.

O que eu quero dizer quando o estudante alcançou algo de concreto. Uma experiência do Vazio Iluminador, um desdobramento consciente desde o momento que ele descola do seu corpo, sai do seu quarto, vai a algum lugar, faz o que tem de fazer, vê, examina, toca, dialoga, e depois, sem nunca ter perdido a consciência, retorna a seu corpo físico, percebendo como se dá o encaixe, uma percepção clarividente de um elementar, um diálogo com um Mestre trás a lembrança até o cérebro, despertar Kundalini, ativar os chakras, tudo isso é concreto.

Essas coisas, sim, dão motivação á pessoa. Por outro lado, conhecemos pessoas aqui na fraternidade e fora daqui, que foram médiuns trabalhadores e que tinham muita facilidade em sair para o astral. Eles relatavam experiências fabulosas, até para a inveja de muitos irmãos que praticamente nunca saíram para o astral. No entanto essas pessoas com tais habilidades afastaram-se do templo. Com isso quero dizer que o mundo astral e as suas experiências são muito ilusórias e quando falamos no Vazio é ir além dessas dualidades mentais e dos fascínios dos paraísos moleculares. Devemos ir além de todo e qualquer fascínio e o mundo astral fascina a muitas pessoas.

Dentro do espiritismo fala-se muito em sair para o astral, de tal maneira que existe quem pense que é só fazer isto ou aquilo e nessa noite sai para o astral e que a partir daí sai para o astral quando se quer e á hora que quer. Este é um engano, decepciona muita gente. Raríssimos são os que conseguem sair para o astral, apesar de todo o empenho e motivação que se tenta transmitir ás pessoas.

Isto porque o desdobramento astral não depende da vontade de alguém. Desdobrar o ego é relativamente fácil, mas para desdobrar o corpo astral primeiro é preciso possuir um corpo astral e quantos de nós temos um corpo astral? Estou a falar em termos de humanidade, pode ser que aqui nesta sala, grande parte de nós tenha um corpo astral porque um dia já o forjou. Porém está tão doente, acabado pelos milénios de lama onde estamos rolando que praticamente perdemos todos esses poderes, então quem se empenhar a trabalhar com meditações, pranayamas, mantralizações, em dois anos, se trabalhar diariamente, passa a ter essas experiências.

Se cairmos no fascínio, isso tornar-se-á nosso inimigo e provavelmente a causa do nosso fracasso na iniciação, até podemos sair em astral, mas aquele que se deixa fascinar atirar-se-á ao mar pelo canto da sereia e vai morrer afogado. Ulisses, que não era bobo, pediu para ser amarrado ao mastro do seu navio, os outros marinheiros que estavam com ele, deixaram-se atrair pelo canto da sereia e atiraram-se ao mar, morrendo afogados.

O mundo astral derrota muitos incautos, esses que se fascinam pelas belezas e paraísos que se podem encontrar. Esta não é a finalidade do Centro, o objectivo não é desdobrar o corpo astral ou o ego, isso serve para qualquer escolinha na esquina, para os espaços esotéricos pop. O objectivo do Centro é a auto-realização, eliminar os seus defeitos, tornar-se uma pessoa virtuosa, um santo, um casto, alguém que se estabelece no Vazio, encarna o seu Buda íntimo e para alguns do seu Cristo intimo, de acordo com o caminho que eleger ao longo da iniciação. Isso é o Templo, não é ensinar alguém a desdobrar e a ter poderes isso é decorrência natural de uma prática que se faz e que precisa ser feita.

Tudo precisa de ser construído, esta construção faz-se da mesma maneira que um pedreiro constrói uma casa, tijolo a tijolo, são horas e horas de meditação todos os dias sem falhar, isto é um trabalho concreto, não é fantasia. Fantasia é você ler livros e é uma das maiores dentro do Templo, pois não é por carregar todos os livros de espiritismo e mediunidade nas costas que alguém se vai iluminar.

Sair para o astral com o ego consciente não é prova nenhuma, é algo concreto, isto é verdade, mas não é prova de avanço espiritual. Porque muitos percorrem as iniciações maiores sem se dar conta, da consciência adormecida, não porque são adormecidos, mas porque os adeptos vigiam muito zelosamente a libertação dos aprendizados que recebemos nos mundos superiores. Nem tudo o que nos é ensinado nós trazemos ao cérebro físico, porque eles não deixam e às vezes são surpreendidos quando alguém consegue furar esses bloqueios que eles utilizam para a nossa própria protecção.

De alguma maneira, eles tentam evitar que acabemos fascinando-nos com essas experiências e esquecendo-se do verdadeiro trabalho, que é desenvolver o fogo interior, Kundalini, que é a base de todo trabalho iniciático. Não estou a falar do chamado desenvolvimento espiritual, porque hoje em dia todas as pessoas dizem: "ah... Porque isso é bom para meu desenvolvimento espiritual". Mas que desenvolvimento espiritual é esse de que as pessoas falam?

Acham que é ler livros, participar de alguns rituais debaixo de uma árvore, participar de uma cerimónia externamente realizada nalgum templo Budista, Rosa Cruz, Teosófico, isso é o chamado desenvolvimento espiritual dessas pessoas? Então eles estão a milhões de anos-luz da realidade.

Quando, em espiritismo, se fala em desenvolvimento espiritual, ele é medido, esse metro é o fogo que cada um transporta dentro de si, "com a vara que medirdes sereis medidos". Quando uma entidade quer medir o avanço de um discípulo, por um processo, eles sacam o Kundalini da coluna de uma pessoa e medem, assim como nós, com uma fita métrica, medimos a altura de uma cerca, com os olhos espirituais vê-se dessa forma. Não é vago, não é "ah... Ser vegetariano é muito bom para o meu desenvolvimento espiritual", é capaz de morrer de inanição(A inanição pode resultar de um jejum, uma carência de alimentos, anorexia nervosa, doença gastrointestinal grave, um acidente vascular cerebral, má nutrição), conquistar alguma enfermidade de deficiência vitamínica antes de se desenvolver espiritualmente.

O único desenvolvimento reconhecido é medido pelo fogo, todos nós começamos como simples alunos e eles sabem dessa condição de recém chegados ou então de lutadores antigos que, por razões kármicas, não conseguiram maiores avanços. Nesse caminho, primeiro paga-se o karma, ou o grosso do karma, para depois se ter direito aos tesouros do espírito. Imaginem por um momento que se Deus ou a Lei fossem imprudentes a tal ponto de libertar os tesouros espirituais a uma pessoa que não pagou ainda as suas dívidas, vocês fariam isso? Emprestariam dinheiro a um conhecido enganador? Se nós aqui não fazemos isso, muito menos a Lei Divina que nos conhece por dentro e por fora.

Os princípios são idênticos, o que se faz aqui com aquilo que se faz lá, eles fazem tudo com perfeição, nós aqui o máximo que podemos buscar é a excelência no fazer, esforçarmo-nos muito para ter um bom resultado achando que aquilo é a perfeição, mas bem longe se está da perfeição. Agora as entidades, diferentemente, só aceitam a perfeição. Nos iniciados até á terceira iniciação maior há muito tolerância. As coisas lá são muito precisas, adequadas ao raio, à natureza, ao carácter e ao grau de cada um de nós.

Se tivermos fantasias durante o dia, elas tornam-se sonhos à noite, isso não é necessariamente uma experiência concreta, parece concreta, mas porque estamos adormecidos não temos capacidade de saber se ela é concreta, podemos ter a impressão de que era algo real, mas é só uma impressão.

Muito cuidado com essas "experiências". Cada qual deve encontrar a sua motivação para fazer o seu trabalho, mas com a seguinte ressalva, não procure resultados, pois o resultado fugirá.
Devemos fazer o nosso trabalho da mesma forma que fazemos o nosso alimento o qual comemos todos os dias para manter o corpo saudável, da mesma maneira tem que se alimentar o espírito para que tenha saúde, força e energia para trabalhar no seu mundo. Assim como o corpo trabalha aqui, o espírito trabalha lá, a alma trabalha lá, são três mundos distintos, corpo, alma e espírito.

Oxalá isto seja o suficiente para acordarmos, fazer práticas. Este é o ultimo ano, o ano definitivo, o ano que representa o transpor do umbral dos nossos trabalhos.

Namastê

1 comentário:

serenidade disse...

Mais um artigo fabuloso.

Muito útil para todos os que até já pensam estar despertos e afinal andamos tão adormecidos.
Namastê.

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